\n'; document.write(barra); } } changePage();
Você dá de cara com o óbvio: matar uma barata é muito difícil.
Como ela fugiu?
Para entender, vamos voltar a cena.
Aproxime-se conosco do monstrinho. As antenas, compostas de 130
segmentos cada uma, esfregam-se nervosamente na comida velha para
sentir seu cheiro - sim, as hastes são o nariz do bicho.
O que seria o queixo dela tem uns dedos finos chamados palpos que
agarram cada pedacinho do almoço antes de enfiá-lo na boca. Os palpos
sentem o gosto. Graças a eles o monstrengo fica sabendo se o prato é
bom antes de botá-lo para dentro. Nesse momento surge você, havaiana
na mão, sorriso sádico nos lábios, certo de que vai acabar com aquele
banquete insolente. Você faz a pontaria.
Pausa.
Vamos acionar a câmera lenta. O chinelo balança e desloca um
pouquinho de
ar. A brisa mínima viaja até o canto da cozinha e empurra sutilmente
dois
pelinhos que o inseto tem no traseiro, chamados cercis.
O balanço dos cercis é transformado em um sinal nervoso e a informação
chega em centésimos de segundo ao gânglio, uma espécie de
cérebro que fica nas costas. Volta outro impulso, a jato, direto para
as
seis patas fininhas e cheias de espinhos, que começam a correr. Não
passou
nem meio segundo e a cascuda já sabe o tamanho do inimigo, sua
velocidade e
sua localização exatas. Em um instante, esquece o petisco, olha para o
predador frustrado - o instinto informa a ela que você, quem diria,
estava
para comê-la - e vai procurar um esconderijo.
Seu esqueleto é flexível como plástico e se entorta todo para que ela
entre pela fenda no azulejo.
Pronto. Voltemos à velocidade normal do filme.
Não tem mais barata nenhuma ao alcance do chinelo. Ela venceu. De
novo.A capacidade da barata "ler" o vento usando um tipo de biruta no
traseiro é o tema de um artigo que saiu em maio na prestigiosa
revista inglesa Nature.
Dois biólogos do instituto de pesquisas da empresa de informática NEC
mediram os impulsos elétricos que circulam pela barata e descobriram
que os pelinhos são capazes de perceber movimentos sutis do ar e de
dar ao bicho informações detalhadas sobre a ameaça que se aproxima.
"Isso explica os reflexos ultra-rápidos", diz o americano
HananDavidowitz,um dos biólogos da NEC, cujo trabalho consiste em
entender melhor o sistema nervoso de insetos para futuras aplicações
em robôs.
Mas o sofisticado sensor de vento é só uma das armas desse tanque de
guerra. Vamos atrás dela, na fenda do azulejo, para conhecer um pouco
mais do seu superorganismo.
Silêncio agora. Os ouvidos do monstrinho são absurdamente apurados,
tão sensíveis que detectam até os passos de outra barata.
Não dá para enxergar nada aqui dentro, não é? Pois cuidado: a barata
está vendo você. É que nossos olhos têm apenas uma lente - o
cristalino -,enquanto os dela possuem 2000. "Elas enxergam mesmo
quando quase não há luz", diz o entomologista José Henrique
Guimarães, do Instituto Biológico de São Paulo.
Agora prepare-se.
Vamos livrar o mundo desse bicho nojento.
É só um inseto, não pode ser difícil matá-lo.
Para ajudar, consideremos que você tenha conseguido capturá-la.
Que tal arrancar uma pata? Não dá resultado.
Ela parece nem ligar.
Membros perdidos crescem de novo em poucos dias.
Vamos radicalizar então.
Faça de conta que é um personagem de um filme do Tarantino.
Arranque a cabeça da imunda.
Ela continuará vivinha da silva.
É que seu sistema nervoso fica espalhado pelo abdômen.
Nem a guilhotina resolve.
Um monstro decapitado como esse pode sobreviver por semanas até
morrer de fome, porque não tem mais boca para comer.
Bom... não nos resta outro remédio senão uma bela chinelada.
Você ainda está com aquela havaiana do começo da matéria?
PLÁÁ!
Bata outra vez, mais forte.
A carcaça de quitina é dura como pedra, não vai quebrar fácil assim.
PLÁÁÁ.
Pronto, parece que agora morreu.
Não, veja, ela ainda mexe as patas, agonizante.
Bata de novo, caso contrário ela sara em alguns dias.
O poder de recuperação da lazarenta é incrível.
PLÁÁÁÁ!
Agora foi.
Morreu.
É bom tirá-la daí ou ela vai apodrecer e pode atacar a saúde de quem
mora por perto. Segundo o alergista Júlio Croce, da Universidade de
São Paulo, os detritos das baratas causam pneumonia, alergias e
infecções
respiratórias.
Tape o nariz.
Chegue mais perto.
Está vendo esse líquido branco?
Dizem que, bem temperado, ele tem gosto de camarão. (Os aborígines da
Austrália e uma tribo na Tailândia apreciam o quitute.)
A gosma é gordura.
É aqui que o animal guarda as reservas de nutrientes que vão
alimentar as células quando faltar comida.
Misturados com a meleca, há algumas dezenas de ovos, e a maioria
deles está inteiro. Ou seja: você esmaga uma e dá à luz dezenas.
Uma barata fêmea fica quase permanentemente grávida.
Cada uma carrega até quarenta ovos, que são capazes degerminar mesmo
depois do falecimento da mãe. Não adianta jogar inseticida no cadáver.
Os ovos sobreviverão. A capacidade de reproduzir é um dos principais
trunfo das baratas.
Durante seus 150 dias de vida, uma única fêmea consegue parir oito
vezes.
Como são quarenta filhotes por vez, isso significa 320 baratinhas a
mais no mundo. Nesse ritmo, em pouco mais de um ano, as descendentes
daquela única progenitora, incluindo suas filhas, netas, bisnetas e
tataranetas, superariam a população humana, que é de 6 bilhões!
E não há nada que você possa fazer. O biólogo David George Gordon
conta em seu livro The Compleat Cockroach (A Barata Completa) uma
história que ilustra esse furor reprodutivo.Uma vez, no Texas, o
serviço de controle de pragas foi
chamado a uma casa onde havia entre 50000 e 100000 baratas.
Os especialistas encharcaram o lugar de inseticida, mas não mataram
todas.
Três semanas depois, existiam 400 cascudas. Passaram outras três
semanas e elas já eram 1000. Seis meses depois, numa nova inspeção, o
que se viu foi a casa inteira tomada novamente. Cada jato de
inseticida numa rachadura fazia com que milhares de animaizinhos
surgissem alucinados. Calcula-se que, mesmo depois de todo o veneno,
havia ainda algo como 25000 cascudas - só na cozinha.
Essa velocidade de reprodução faz dela um inimigo quase
indestrutível.Um alien.
Cada vez que um bando é atacado com inseticidas, uma delas sobrevive
e passa a resistência ao produto para os descendentes.
Em pouco tempo, todo mundo é resistente.
Por isso as empresas que desenvolvem venenos têm sempre que reciclar
as fórmulas. A barata é um dos bichos mais bem adaptados do planeta.
Não é à toa que infesta os buracos quentes e úmidos do mundo há 340
milhões de anos, como atestam recentes descobertas de asas
fossilizadas.
Quando surgiu o primeiro dinossauro, há mais de 220 milhões de anos,
as cascudas já se alimentavam de seus restos de comida.
Mas a época de ouro das baratas iniciou-se há uns 2 milhões de anos,
quando uns macacos espertos começaram a morar em cavernas e a guardar
comida.
Esse animal, o Homo erectus, era ancestral direto do homem. Os
insetos adoraram a companhia dos nossos tataravôs. Desde então, fazem
a festa nas lixeiras e despensas.
Apesar de ter inventado o chinelo e o inseticida, o homem é o melhor
amigo da barata.
As grandes cidades concentram também as maiores populações de
baratas, principalmente aqui nos trópicos, onde o calor oferece
condições ideais para aquele corpinho imbatível reinar.
Em São Paulo, por exemplo, deve haver 200 baratas para cada pessoa,
segundo Luis Fernando Macul, diretor da Associação Paulista de
Controladores de Pragas Urbanas. (Se você quiser, pode ficar com as
minhas.)
"Não há como exterminá-las de uma cidade grande", afirma.
"No máximo,
podemos controlar a população."
Portanto, perca as esperanças de livrar-se delas. Tente fazer
amizade, afinal aqueles olhos horríveis viram nossa espécie surgir e
certamente ainda nos verão sumir da Terra.
Um dia, quando um asteróide errante ou uma bomba nuclear nos tirar a
luz do Sol e decretar a extinção da humanidade, elas farão
exatamente o que já fizeram uma vez, há 65 milhões de anos, quando os
dinossauros morreram. Encontrarão um esconderijo, esperarão baixar a
poeira e sairão em busca de alimento.
Como haverá fartura de animais mortos, certamente não
será difícil encontrar comida. E os monstrengos continuarão habitando
as fendas do planeta, com os pelinhos do traseiro em prontidão, à
espera de uma espécie que lhe seja páreo. Que ainda está para nascer.
respeito o cidadão que redigiu isso.
bituca, o psicossodomita